Mutilação Genital Feminina (MGF)

Decidi abordar este tema por saber que a maioria das pessoas desconhece que a Mutilação Genital Feminina é praticada em algumas sociedades.

Um outro motivo que também me levou a mostrar esta realidade, foi a dor que senti ao tentar colocar-me no lugar das mulheres, das crianças… É horrível! Mas, mais dolorosa deve ser a dor que estas mulheres na realidade sentem!

A Mutilação Genital Feminina (MGF) é uma prática considerada demasiada agressiva para com as mulheres (muitas destas, crianças).

Esta prática desumana consiste na remoção de uma parte ou da totalidade da genitália externa feminina, por razões, não médicas.

Podendo variar de país, para país. Por exemplo, em África, uma prática utilizada e designada de infibulação (considerada uma das mais graves) é praticada nas mulheres. Este procedimento consiste em suturar os dois lados da vulva, após a remoção completa do clítoris e dos lábios vaginais, deixando um simples orifício para a urina e para a menstruação.

Como se pode constatar, a Mutilação Genital Feminina priva a mulher do “direito à sua integridade física, vivência da sexualidade e maternidade de uma forma plena.”

Existem vários tipos de Mutilação Genital Feminina, cada um tão ou mais cruel que o outro. Realmente, não consigo entender, porque é que nos dias de hoje ainda se continua a praticar tal atrocidade?

Segundo a mais recente reclassificação dos 4 tipos de Mutilação Genital Feminina, a Organização Mundial de Saúde (OMS) divide a Mutilação Genital Feminina em quatro tipos com diferentes variações:

Tipo I – Remoção de uma parte ou da totalidade do clítoris.

Variações:

Tipo I a – Somente a remoção do prepúcio do clítoris;

Tipo I b – Remoção do clítoris juntamente com o prepúcio.

Tipo II – Remoção de uma parte ou da totalidade do clítoris e dos pequenos lábios, podendo ou não existir a excisão dos grandes lábios.

Variações:

Tipo II a – Remoção só dos pequenos lábios;

Tipo II b – Remoção de uma parte ou da totalidade do clítoris e dos pequenos lábios;

Tipo II c – Remoção parcial ou total do clítoris, dos pequenos lábios e dos grandes lábios.

Tipo III – “Estreitamento do orifício vaginal, através da criação de uma membrana selante, pelo corte e aposição dos pequenos lábios e/ou dos grandes lábios, com ou sem excisão do clítoris (infibulação).”

Variações:

Tipo III a – remoção e aposição dos pequenos lábios;

Tipo III b – remoção e aposição dos grandes lábios.

Tipo IV– Diz respeito a outras intervenções praticadas nos órgãos genitais Femininos, por razões não médicas, nomeadamente: “punção/picar, perfuração, incisão/corte, escarificação e cauterização.” 

(Fonte: PDF MGF Direitos Humanos de Mulheres e Crianças)

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) entre 100 e 140 milhões de meninas, raparigas e mulheres em todo o mundo foram submetidas a um dos primeiros três tipos de Mutilação Genital Feminina.”

Estes números são arrepiantes!

Onde está o direito à escolha da mulher?

Relativamente às consequências físicas e psicológicas da Mutilação Genital Feminina, estas são devastadoras!

Como deves imaginar, todos os tipos de Mutilação Genital Feminina podem levar à morte da mulher (ou da criança). Pois estas podem sofrer uma hemorragia difícil de estancar (durante a prática).

Depois desta mutilação horrenda, as mulheres sofrem dores intensas devido ao corte de terminações nervosas e de tecido genital (este processo é praticado sem qualquer tipo de anestesia). Assim como, também podem vir a sofrer de infeções muito graves.

No caso da infibulação, a mulher pode sofrer muito mais, que vai desde incontinência urinária; relações sexuais dolorosas; “infeções no trato reprodutor devido a obstruções do fluxo menstrual, infeções pélvicas, infertilidade, e tecido excessivo da cicatriz. Durante o parto, o tecido cicatrizado existente nas mulheres mutiladas pode romper.

As mulheres infibuladas, que têm os lábios vaginais fechados, têm de ser cortadas para deixarem espaço para a criança nascer.”

Em relação às consequências psicológicas, estas são devastadoras para um ser humano.

A mulher vem a sofrer do Síndrome de stress pós-traumático. Tem medo de ter relações sexuais; sofre de ansiedade, depressão, perda de memória, insónias, pesadelos, perda (ou ganho) de apetite e de peso, pânico, falta de concentração e dificuldades na aprendizagem.

Para quê causar tanto sofrimento a um ser humano?

Sinceramente, as tradições arcaicas deveriam de ser abolidas!

A prática de Mutilação Genital Feminina é defendida pelos povos que a praticam, como sendo um “ritual de transição para a rapariga, garantindo o seu estatuto e casamento dentro da comunidade.” Desta forma, também asseguram que a mulher seja fiel ao futuro marido.

Normalmente, são os pais que autorizam a mutilação da sua filha. Se eventualmente os pais optarem por não a mutilar, geralmente não é aceite de bom grado pela comunidade. Visto que, a Mutilação Genital Feminina está demasiado enraizada nas estruturas sociais.

Deste modo, a escolha de se decidir se a mulher é ou não circuncidada “exige uma escolha coletiva de dentro para fora da comunidade. Para que as raparigas que permanecem não mutiladas e as suas famílias, não sejam envergonhadas e alienadas.” As que normalmente não são circuncidadas são consideradas “impuras”.

Normalmente, a idade escolhida para esta prática varia de região, para região. Por vezes, acontece entre os 0 anos (poucos dias depois do nascimento) aos 14 anos, ou pode ocorrer antes da rapariga se casar, ou depois da primeira gravidez.

Sinceramente, não consigo aceitar tudo isto!

Para piorar todo este cenário, as ferramentas utilizadas para se remover os órgãos genitais femininos são tesouras, facas, pedaços de vidro, lâminas de barbear ou navalhas, e raramente os instrumentos são esterilizados.

Afinal, vivemos em que século?

Compreendo que os países em que praticam a Mutilação Genital Feminina são pouco desenvolvidos. Mas por favor, não me venham dizer que não existe uma forma de esterilizar seja o que for! 

Muitas circuncisões são praticadas em locais sem condições de higiene. Por exemplo, no mato (Ritual, entrada na idade adulta), ou no exterior das casas, estes locais são demasiado poeirentos.

Quando se realiza tal ato macabro, a mulher (ou a criança) é imobilizada. Normalmente, por outras mulheres. Pode-se, portanto, imaginar o trauma psicológico ao qual a mulher é sujeita. Quando esta é agarrada por outras mulheres, ela “luta” fisicamente, contorcendo-se, juntamente com gritos horripilantes. Todo este sofrimento a que a mulher é submetida, acontece antes e durante o corte no seu órgão genital.

A Mutilação Genital Feminina é um método praticado sem qualquer tipo de anestesia.

A realidade é para ser mostrada, e não para ser ignorada!

Em relação à origem da Mutilação Genital Feminina, as evidências de múmias egípcias sugerem que esta prática era praticada há 5.000 anos.

Na Roma antiga, os romanos colocavam anéis metálicos nos genitais das mulheres escravas Desta forma, evitavam uma gravidez.

No século XIX, mais especificamente, no Reino Unido, no caso de uma mulher ter epilepsia, o tratamento efetuado para esta doença, baseava-se na remoção do clítoris. Assim como, para o tratamento de esterilização e masturbação, o mesmo método era aplicado.

Em África e no Médio Oriente, a Mutilação Genital Feminina tem raízes ancestrais. Mas, nessas mesmas regiões, existem países onde esta prática cruel é recente ou simplesmente não existe.

Segundo os povos que praticam a Mutilação Genital Feminina, estes justificam esta ação como sendo uma forma de preservar a virgindade e assegurar a fidelidade; de proteger a honra da família garantindo a legitimidade das descendências; de reduzir o desejo sexual; de aumentar o prazer do homem durante uma relação sexual; de aumentar a higiene e estética (pois os órgãos genitais da mulher são considerados sujos e inestéticos); de aumentar a fertilidade nas mulheres e facilitar o parto; de aumentar as oportunidades matrimoniais, etc.

Ignorância é o que é!

Nesta situação, as mulheres (e crianças) mais parecem objetos nas mãos da sua sociedade!

Vá-se lá entender estas crenças!

Devido a este conjunto complexo de razões sociais (que justifica tal prática) é que se continua a circuncidar as mulheres e as crianças.

Em relação aos pais que autorizam a Mutilação Genital Feminina nas suas filhas, estes estão cientes da dor e do sofrimento que lhes causam. Mas, segundo eles, estão a fazer o que é correto para educar a filha, estando-a a prepará-la para a vida adulta e para o casamento.

Ao contrário do que se julga, a Mutilação Genital Feminina não tem origem religiosa. Existe em várias sociedades, e foi identificada em grupos cristãos (protestantes, católicos), muçulmanos, judeus, animistas e ateístas.

Esta prática, com base em uma tradição arcaica, afeta uma grande quantidade de mulheres em todo o mundo, de várias religiões e culturas. A mulher é, portanto, privada dos direitos humanos básicos. No meio de toda esta tradição onde ficam os seus direitos?

“Três milhões de meninas e mulheres são vítimas de Mutilação Genital Feminina no mundo, a cada ano que passa. Dá um total de 8.000 mulheres por dia. Esta prática também é habitual na UE entre certas comunidades originárias de países onde se pratica a Mutilação Genital Feminina. O número exato de mulheres e raparigas que sofrem Mutilação Genital Feminina na Europa ainda é desconhecido, embora o Parlamento Europeu calcule que sejam cerca de 500.000, e outras 180.000 mulheres e raparigas em risco de serem submetidas à prática anualmente.”

No caso da UE, as mulheres e meninas quando vão de férias aos seus países de origem, regressam de lá mutiladas.

Normalmente, os tipos mais praticados são o tipo I e II, em 90% dos casos.

O tipo III, considerado o mais grave, ocorre em cerca de 10% dos casos.

Assim como, também foram registados em “alguns países da Ásia (Índia, Malásia, Indonésia e Sri Lanka) e Médio Oriente (Emirados Árabes unidos, Egito, Oman, Iémen)”.

A África, é o país onde mais se pratica este tipo mutilação.

Pergunto-me, será que algum dia se deixará de praticar tal ato macabro?

Não existe resposta a curto prazo…

Em alguns países já foi proibida a Mutilação Genital Feminina. Infelizmente, continua a praticar-se.

São muitas as campanhas de saúde, e de luta, existentes em todo o mundo, para que esta prática seja excluída definitivamente destas sociedades.

As campanhas de saúde até têm sido eficazes em alguns países, principalmente na última década. Por exemplo, no “Quénia, um estudo de 1991, diz que 78% dos adolescentes haviam sido circuncidados, em comparação com 100% das mulheres com mais de 50 anos. No Sudão, a prática diminuiu 10% entre 1981 e 1990.”

Segundo a UNICEF, “nos últimos 10 anos em vários países, incluindo Costa de Marfim, Níger, Mali e Nigéria” este tipo de prática tem diminuído.

Consoante os dados de pesquisas efetuadas, estes mostram que “mais de 50% das mulheres no Burkina Faso, Côte d’lvoire, Guiné-Bissau, Nigéria e Senegal apoiam o abandono desta prática. Ao contrário, em Mali, só apenas 16% das mulheres são a favor do abandono.”

Quem sabe se num futuro próximo poderá vir a ser erradicada a Mutilação Genital Feminina. Espero que os povos mudem de mentalidade, e entendam que as tradições arcaicas prejudiciais à saúde, e ao bem-estar psicológico das mulheres e das crianças devem ser erradicadas. 

Relativamente, às campanhas de saúde, elas baseiam-se essencialmente num programa com a duração de uma semana. As mulheres jovens são isoladas (durante esta semana) e são submetidas a esclarecimentos sobre os efeitos negativos e prejudiciais deste tipo de prática. Também são dadas aulas de reprodução, anatomia, higiene e autoestima.

Os familiares também têm acesso a sessões de educação na área da saúde, assim como, também é ensinado ao homem os efeitos devastadores da Mutilação Genital Feminina.

Estes profissionais acreditam que este tipo de programa funciona, pois oferece uma alternativa em vez da Mutilação Genital Feminina.

Realidades como esta têm de ACABAR!

Segundo a perspetiva dos direitos humanos, a Mutilação Genital Feminina é uma ação que prejudica as mulheres e as crianças, é uma violação, portanto, aos direitos humanos, incluindo o direito à saúde, à integridade física, proteção, e em casos extremos, o direito à vida.

Considerada desta forma, uma descriminação contra as mulheres e a desigualdade entre os sexos.

“Não é coincidência que as violações graves do direito à integridade física, à proteção contra a tortura, tratamento cruel ou degradante, aos direitos de proteção da criança, se multiplicam precisamente onde mais falta faz políticas adequadas na educação e na saúde pública.

É por isso que a preocupação com as questões de Género e Direitos Humanos deverá estar sempre presente, transversalmente, na ajuda ao desenvolvimento, libertando o imenso poder criativo e o potencial económico das mulheres.” João Gomes Cravinho, Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e Cooperação (2007)

Por favor, visita este site e assina!

É um direito nosso tentar ajudar!

http://www.endfgm.eu/pt/petition/

 

Texto utilizado na elaboração de um trabalho para a disciplina de Introdução à Antropologia Biológica (UCFCT). 

Categorias: As nossas sociedades

4 comentários

Rafael · 15 de Dezembro de 2011 às 17:23

Isso é uma vergonha devia mostrar isso nos televisores,jornais etc… Por que isso e a realidade e poucos sabem, outros países estrangeiros fazem isso eles não devem ter noção do que faz e como diz o próprio relatório “Segundo a perspectiva dos direitos humanos, a MGF é uma ação que prejudica as mulheres e as crianças, é uma violação, portanto, aos direitos humanos, incluindo o direito à saúde, à integridade física, proteção, e em casos extremos, o direito à vida.” Essa é a realidade e só porque metade do mundo não sabe disso não é importante , mais não é isso porque isso é de sub importância. Obrigado pelo relatório esta Ótimo =] Parabéns !!!

nokitas · 24 de Novembro de 2011 às 22:58

Muito obrigada! 🙂

Dica Aviloff · 22 de Novembro de 2011 às 21:30

Parabéns….vc aborda temas esquecidos pela maioria das pessoas, que são de grande importância….parabéns mesmo

Leo · 13 de Abril de 2011 às 0:04

ISSO É BASTANTE CRUEL!!!!!!!!!!!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Artigos relacionados

A realidade do nosso mundo

Je suis Charlie

Em relação a estas mortes de pessoas inocentes, interrogo-me, será que foram mesmo os “terroristas”? Ou tal não convinha aos governos? A dúvida na minha cabeça permanece. Com isto, não quero formular teorias da conspiração, Ler mais…

A realidade do nosso mundo

Albinismo: preconceito, perseguição, mutilação, assassínios…

São raras as vezes que ouvimos as palavras, albinismo ou albino. Por saber que existem muitas pessoas que desconhecem tais conceitos decidi escrever sobre este tema. Espero que os seres humanos entendendam que os albinos são seres Ler mais…

As nossas sociedades

Perigo para a saúde: McDonald’s

Nos dias de hoje, as grandes empresas só têm um objectivo, lucrar cada vez mais. E não olham a meios para atingir os seus fins. Neste caso, a McDonald’s ignora, para seu benefício, os danos Ler mais…