Ninguém deve ser mantido em escravatura ou servidão; a escravatura e o comércio de escravos são proibidos em todas as suas formas.” (Artigo 4º da Declaração Universal dos Direitos Humanos)

Infelizmente, e cada vez mais, a realidade mostra que em pleno século XXI a escravatura não foi ainda abolida, ela adquiriu novas fases, novas estratégias de escravizar um ser humano.

Decidi escrever este texto, depois de ter visualizado este documentário (abaixo), intitulado o “Lado Negro do Chocolate”. Não consegui ficar indiferente, e espero que quem o visualizar também o divulgue.

As pessoas que adoram comer chocolates irão ignorar este texto, este documentário, pois preferem viver na ignorância a visualizar a realidade.

Para as pessoas que sentem indiferença, só tenho uma coisa a dizer, quando comprarem um chocolate, lembrem-se que para o poderem estar a saborear, imensas crianças são traficadas e obrigadas a trabalhar nas plantações de cacau.

Esta menina, foi encontrada numa rodoviária e levada de volta para casa, que fica a 450 km do local onde foi resgatada.

(Imagem, retirada do documentário.)

Nós, seres humanos, consumistas exacerbados, que não olhamos a meios para obter o que desejamos, deveríamos reflectir sobre como o que adquirimos nos veio parar às mãos. Mas tal não o fazemos, por isso, desconhecemos o que as empresas tentam ocultar dos nosso olhos.


A maioria das empresas, e neste caso, as do chocolate, transmitem aos seus clientes uma imagem glamorosa, transparente, mas  na realidade não corresponde à verdade. Ou seja, nós só vimos a superficialidade das empresas, mas nunca nos questionamos, quem trabalha nas plantações do cacau?

Fiquei indignada de saber, que são crianças traficadas, que obrigadas a trabalhar recolhem o dito cacau (um fruto que provém do cacueeiro (Theobroma cacao) para as grandes indústrias do chocolate.

A cada dia que passa, quando me deparo com este tipo de realidade desumana, mais entendo que o homem não olha a meios para atingir os seus fins. E tudo, por causa do maldito dinheiro! Dinheiro este, que leva um ser humano a traficar os da sua própria espécie, e tudo isto, para ganhar uns míseros 230 euros pelo tráfico de uma criança (neste caso).

Não é  justo roubarem a infância destas crianças! E mais revoltante, é saber que a maioria de nós que consumimos chocolates desconhecemos a sua verdadeira origem. E, estas indústrias negam a existência de crianças nas plantações, quando de fato elas existem lá, e nada fazem! Aliás, tapam os olhos, porque a única coisa que lhes interessa mesmo, são os lucros, e nada mais!

Gostaria que estes ditos “senhores” entendessem que o dinheiro não se deveria sobrepor a uma vida!

(Imagem, retirada do documentário.)

O documentário aborda, portanto, o tráfico de crianças, que origina o trabalho infantil nas plantações de cacau.

Como é demasiado perigoso investigar o lado obscuro da indústria do chocolate, Miki Mistrati (jornalista dinamarquês) decidiu disfarçar-se, e mostrar ao mundo, a verdade que não querem que vejamos.

As crianças, são contrabandeadas de Mali para as plantações de cacau na Costa de Marfim (África, o maior produtor mundial de cacau). “Isto, constitui tráfico, o que não deveria ser possível, pois os maiores fabricantes de chocolate assinaram um acordo em 2001, chamado Protocolo Harking e Engel.” Este protocolo, “declara que o trabalho infantil e o tráfico de crianças estão proibidos no sector do chocolate após 2008.” Infelizmente, tal continua a acontecer, protocolo este, que não é posto em prática.

Mali (África), é um dos países mais pobres do mundo. Acredito, que devido a tal fato, seja mais fácil apoderarem-se das crianças sem que tenham de justificar para onde as levam. O mais impressionante, é que as autoridades negam o tráfico de crianças, quando na realidade, ele existe!

Este tipo de tráfico, começa numa rodoviária em Mali, de seguida, as crianças são levadas para a cidade fronteiriça de Zégoua, deste local são contrabandeadas pela fronteira.

Idrissa Kanté, um membro do sindicato local dos motoristas de autocarros, afirma: “O tráfico de crianças sempre existiu. Sempre! Crianças partem constantemente da rodoviária, e são levadas à Costa do Marfim, têm entre 12 a 14 anos. As meninas entre os 11 e os 12 anos.”

Desde 2003, Idrissa Kanté tenta impedir o tráfico de crianças. Ele mantém num caderno o registo de todas as crianças resgatadas do tráfico. “Em 2006, descobri 132 crianças sendo traficadas (97 meninos e 35 meninas). Em 2007, foram 140 (99 meninos e 41 meninas)”. Em 2008 e 2009, ele resgatou mais de 150 crianças. A sua lista inclui, crianças de 7 anos. Estes meninos e meninas, são oriundos de Mali, Burkina Faso e Níger.

O chefe local das empresas de autocarros, afirma que os traficantes transportam 10 a 15 crianças de uma vez, vão de autocarro até à fronteira (Costa do Marfim),  e depois transportam-nas de moto-táxis pela fronteira. As crianças são mantidas ocultas, e posteriormente, vendidas a fazendeiros locais.

Os (as) traficantes aliciam as crianças, convencendo-as a irem com eles. Prometem-lhes que irão ganhar dinheiro, quando tudo não passa de uma mentira.

Outras crianças não chegam a ser aliciadas por traficantes, os próprios donos de plantações simplesmente raptam as crianças sem que dêem algum tipo de justificação aos pais (tal acontece, num mercado local, de uma aldeia).

(Imagem, retirada do documentário)

As pessoas locais tentam impedir o tráfico, resgatando as crianças que conseguem. Sofrem imenso com tal situação, pois sentem-se impotentes. Mas, imagino que pior é o sofrimento causado a uma criança escravizada.

Na cidade de Zégoua, que faz fronteira com a Costa de Marfim, um dono de um restaurante presencia o tráfico de crianças todos os dias. Afirma o seguinte, “alguns dias são piores do que outros, mas levam crianças todos os dias. Quando os autocarros encostam, as crianças descem rápido e continuam por moto-táxi.”

Um traficante de crianças, conhecido deste dono de um restaurante, disse: “Não dá para atribuir o tráfico na fronteira a uma pessoa. Uma pessoa as leva à fronteira, outras as faz cruzá-la, e uma terceira as recebe. Não é uma determinada pessoa. Se alguém na fronteira disser que não trafica crianças está a mentir. Os donos das plantações pagam-nos para levar crianças pela fronteira. Eu, já levei várias.”

É lamentável, esta fria realidade!

Abidjan (capital do cacau), abriga os escritórios dos maiores fabricantes de chocolate, como a Nestlé, Cargill, ADM e Barry Callebaut. 42% da produção mundial de cacau provém da Costa de Marfim. Estas empresas juntas, compram quase toda a produção.

42% da produção mundial de cacau provém da Costa de Marfim!? Este número leva-me a reflectir, provoca-me um enorme calafrio, só de imaginar quantas crianças serão precisas, para trabalhar nas plantações de cacau? As áreas, devem ser imensas!

(Imagem, retirada do documentário)

A 3ª maior exportadora de cacau, a Saf-Cacao (na Costa do Marfim) exporta para os EUA e para a Europa. Esta, factura um lucro de 135 milhões de euros ao ano.

Miki Mistrati (o referido jornalista, autor deste documentário), questionou Alli Lakiss (o proprietário, da Saf-Cacao) sobre o trabalho infantil. E, Alli Lakiss respondeu: “Jamais encontrei crianças de 10, 15, 16 e 13 anos a trabalhar nas plantações. Não há crianças nas plantações! Posso assegurar ao mundo inteiro, não apenas aos EUA e Europa, que a Costa de Marfim é um país sem crianças escravas nas plantações. Nenhuma criança trabalha nas plantações! Somos um dos maiores produtores de cacau, se as pessoas não quisessem comprar cacau, faz ideia do desastre que isso causaria no mundo inteiro? Não brinque com as palavras.”

É incrível, o que o homem faz para enriquecer, e como tem a coragem de mentir descaradamente, quando na verdade, as crianças existem sim, nas plantações de cacau.

Este “senhor”, está mais preocupado com o impacto no mundo, se eventualmente as pessoas deixassem de comprar cacau, do que propriamente em se preocupar com as crianças escravas.

Miki Mistrati, decidiu ir visitar plantações de onde a Saf-Cacao obtém o seu produto, e verificou que existem crianças a trabalhar nas plantações. Crianças estas, com idades entre os 10 e 12 anos. Nenhuma frequenta a escola, nenhuma fala o idioma local.

Porque é que será que o “senhor” Alli Lakiss ocultou tal fato? Se reflectirmos um pouco, não é difícil de se obter uma resposta!

Numa outra visita, a uma destas plantações, o jornalista usou uma câmara oculta, e obteve respostas que provam o tráfico de crianças. Ele, e o seu aliado, abordaram um dono de uma plantação e perguntaram-lhe: “O que fazemos se precisarmos de crianças para trabalhar para nós?”

O dono da plantação respondeu: “O meu irmão mais velho está ali, se disserem a ele quantas crianças querem, ele pode arranjá-las para vocês.”

“Quanto custa para trazer as crianças?”, perguntou o aliado do jornalista.

Ao que o dono da plantação respondeu: “O preço, é a partir de 230€.”

O preço de compra de uma criança, inclui o transporte e o uso ilimitado desta. “A maioria das crianças nunca são pagas.”

Triste mundo em que vivemos, o mais fraco, o mais pobre, é subjugado pelo mais forte. Aliás, nem é pelo mais forte, mas sim, pelos possuidores de bens que geram lucros exorbitantes!

(Imagem, retirada do documentário)

Neste documentário, podemos ver duas crianças, vítimas deste tipo de escravidão, que conseguiram fugir. Ambos, eram de Mali.

Yaya Konate (16 anos) descreve o seguinte, “Os traficantes nos enganam e partimos com eles. Haviam muitas crianças e todos tentamos fugir. Mas os donos das plantações perseguiram-nos. Escondemo-nos a noite toda, no dia seguinte, um homem achou-nos, e ajudou-nos a irmos para casa.”

Zanga Traoré (15 anos) refere, “Se trabalharmos devagar ou nos recusarmos a trabalhar, eles batem na gente.”

(Imagens, retiradas do documentário)

Miki Mistrati, entrou em contacto com um membro da Interpol, Henri Blémin. Este, informou-o que numa operação denominada BIA, que durou dois dias, conseguiram resgatar 65 crianças traficadas. Estas, eram oriundas de Mali, Burkina Faso, Níger, Togo e Benin.

Depois de recolhida esta informação, Miki Mistrati voltou à Saf-Cacao para confrontar Alli Lakiss.

Inicialmente (como referi um pouco mais acima), Alli Lakiss tinha mencionado “(…) não há crianças nas plantações. Posso assegurar ao mundo inteiro (…).” Mas, depois de confrontado com a Operação da Interpol acabou por admitir o problema.

Na minha opinião, só  não o admitiu inicialmente porque queria manter uma imagem transparente. Infelizmente, límpida é que não é!! É, muito obscura!

Frank Hagemann (director do International Programme on the Elimination of Child Labour) menciona: “É um trabalho muito perigoso o que as crianças fazem nas plantações. Não apenas, devido aos facões que utilizam. Geralmente, carregam cargas pesadas. Comummente são expostas a pesticidas. O trabalho com pesticidas mostra os seus efeitos após 20, 30 anos.

Se me perguntar agora quantas crianças trabalham nos cacauzais na Costa do Marfim, Gana, eu não poderia dar um número exacto.”

Infelizmente, o uso do trabalho infantil continua a predominar na indústria do chocolate.

(Imagens, retiradas do documentário)

“O que as empresas de chocolate estão a fazer para combater o problema?”

Lamentavelmente, não assumem qualquer responsabilidade!

Segundo o documentário, a Nestlé “a maior empresa alimentícia, detém 12% do mercado mundial. E, está presente na Costa do marfim à mais de 50 anos. Eles devem conhecer os problemas com o tráfico e trabalhos infantis.”

É incrível, como o dinheiro faz lavagens cerebrais ao cérebro do homem ganancioso. Este, não vê a vida de uma criança. A única coisa que vê nestas crianças, são objectos. Objectos estes, que obrigatoriamente trabalharão para si, gerando os seus lucros.

Sinceramente, não sei como é que os proprietários destas indústrias conseguem dormir à noite! Ou, se tiverem filhos, como é que conseguem olhar para eles, sabendo o mal que estão a causar a outras crianças semelhantes às suas.

Estas empresas, preferem vendar os olhos, tapar os ouvidos, do que averiguarem o que realmente se passa no país de onde obtêm o seu produto valiosíssimo.

Portanto, deveriam começar a preocupar-se mais com as crianças traficadas. Deveriam começar a fazer algo para as ajudar. Mas, a realidade é outra, só pensam em lucrar biliões (que é o caso, da Nestlé) à custa da infância roubada a milhares de crianças.

É urgente, começar-se a fazer algo. Temos de ser a voz destas crianças que não podem defender-se!

Na minha opinião, deveríamos deixar de comprar chocolates. Deste modo, as empresas sofreriam uma grande quebra, e perceberiam que a humanidade não tem uma venda nos olhos, mas que está a observar, a agir, em nome das crianças traficadas.

A indiferença, existe nos corações que não possuem sensibilidade suficiente, para entender, a gravidade desta situação.


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