“A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade “.
Carlos Drummond de Andrade



A morte nem sempre está presente na minha mente, mas às vezes penso nela. Reflito sobre o que costumo ouvir dizer, “a morte não acontece só aos outros”, “para se morrer basta estar-se vivo”.

Portanto, hoje posso estar aqui, e amanhã já cá não estar. A morte é imprevisível!

Quando ganho consciência de que amanhã posso já não estar aqui, algo em mim desperta. Este acordar mostra-me que eu devia valorizar mais a minha vida, a natureza, as pessoas, e as pequenas coisas que julgo insignificantes. 

Também constato que a sociedade me obriga a correr desenfreadamente. Toda esta pressa impede-me de ter tempo para mim, e para as pessoas que eu amo. 

Afinal, o que é a vida?

É somente viver para poder sobreviver? Ou é algo mais?

Acredito que seja muito mais… Se não fosse, porque é que quando eu penso na morte sinto o que sinto?

Pensar na morte, no quão curta é a vida, leva-me a observar a minha própria vida. Interrogo-me, porque é que a sociedade tem mais controlo da minha vida do que eu própria?

A minha mente responde, “não podes deixar, viverás sem viver verdadeiramente”.

De repente imagino o mundo sem mim… Sinto alguma tristeza de o imaginar assim. Consigo perceber o silêncio que se apoderaria da casa. Do vazio que algumas pessoas que me amam iriam sentir. A dor que lhes causaria sabendo que eu morri. E os meus gatinhos? Sem dúvida, estes sentiriam muito a minha falta.

Felizmente, nunca conheci a morte. Como é óbvio, não sei o que é “estar do outro lado”. Mas, se eventualmente tivesse consciência de que parti, eu iria sentir saudades de tudo, até das pequenas coisas que por vezes me parecem insignificantes. Embora agora entenda, que todas elas têm um significado.

Se eu morresse amanhã, e tivesse consciência deste facto… Eu iria sentir saudades de quem me acompanha. De quem caminha ao meu lado nos momentos mais importantes da minha vida.

Eu iria sentir saudades dos abraços que costumo dar às pessoas que eu amo.

Eu iria sentir saudades do sorriso da minha mãe, e da minha família.

Eu iria sentir saudades dos meus três gatinhos. Das suas brincadeiras, dos seus olhares ternurentos, dos miminhos que não lhes poderia voltar a dar.

Eu iria sentir saudades até dos momentos que considerei monótonos.

Eu iria sentir saudades de ler.

Eu iria sentir saudades da natureza; de olhar para um belo pôr-do-sol; da cor dos dias, todos eles diferentes; do nascer do dia, da noite; da “minha” lua e das “minhas” estrelas; de sentir uma simples flor entre os meus dedos; de observar uma folha a cair de uma árvore; de me sentar e sentir a terra debaixo de mim; de tocar e de abraçar as árvores que eu tanto adoro; do vento a tocar no meu rosto; do sol que ilumina os meus dias; da água a passar entre os meus dedos; de olhar para as nuvens cinzentas e carregadas, antes de começar a chover; da chuva a molhar-me, do seu toque no meu corpo; do cheiro a terra húmida; de observar os pássaros a voar, a cantar; de olhar para o azul do céu num dia límpido; de correr no campo e sentir a vegetação a tocar-me; de sentir a areia da praia debaixo dos meus pés; de sentir as ondas do mar a embater no meu corpo; do som que fazem ao rebentar; do início e do final de cada estação do ano… Iria sentir mesmo muitas saudades natureza, da sua beleza única e indescritível.

Eu iria sentir saudades do que eu vivi, e do que eu tinha ainda para viver.

Eu iria sentir saudades de observar as pessoas com quem me cruzo, de observar as diferenças de cada um, que tanto me fascinam.

Sem sombra de dúvida, eu iria sentir saudades de TUDO! Mesmo dos dias em que me sinto aborrecida. Até das pessoas que me chateiam sem razão aparente. Ou das pessoas que nem um sorriso me dão.

De uma coisa eu não ia sentir saudades, da correria do meu dia-a-dia que me impede verdadeiramente de viver.

Se eu morresse amanhã também me iria arrepender de não ter tido coragem para enfrentar os problemas, obstáculos quando eles surgiram.

Iria arrepender-me dos sentimentos que nunca demonstrei, das palavras que nunca disse, e que talvez devesse ter dito, e de outras que nunca deveria ter proferido!

Iria arrepender-me dos dias que passei triste, por ter dado importância às pessoas que em algum momento me rebaixaram.

Iria arrepender-me da atenção que não dei aos meus gatinhos quando tentavam chamar-me à atenção.

Iria arrepender-me de não aproveitar melhor os meus dias, ou seja, de passar uma grande parte do tempo em casa. Sem apreciar verdadeiramente a natureza.

Iria arrepender-me de não passar tanto tempo quanto gostaria com a minha família, ou com os meus amigos (as).

Iria arrepender-me de não poder ajudar os animais abandonados, como eu gostaria.

Iria arrepender-me da esmola que não dei, quando me pediram.

Iria arrepender-me dos dias que acordei irritada comigo, sem conseguir explicar porquê.

Iria arrepender-me da atenção que não dei a quem precisava.

Iria arrepender-me de nunca ter adotado um cão.

Iria arrepender-me dos abraços, que por vezes tenho vontade de dar e não dou…

Infelizmente, mais uma vez me apercebo que estou a perder o mais precioso que tenho. Ou seja, o meu tempo de vida. Com o dia-a-dia que a sociedade me obriga a viver… Viver assim, não é verdadeiramente viver! É necessário ter o controlo da minha própria vida.

Sem dúvida, se eu morresse amanhã… Partiria triste, por não me poder despedir de quem eu amo, dos meus gatinhos, da minha natureza… Por não conseguir desenvencilhar-me a tempo das correntes invisíveis que me aprisionam, que me impedem de ser verdadeiramente livre…


Quando penso na morte noto que ao outro dia acordo com mais vontade de viver. Sinto a vida em mim, e ganho consciência que a devo valorizar mais… 

Aprecio cada dia com todos os meus sentidos. 

Dou mais atenção às pessoas, à família, aos amigos (as), aos meus gatinhos. 

Transmito amor às pessoas mesmo não as conhecendo. Consigo, com mais facilidade, apreciar os seus comportamentos, os seus olhares, a ternura que por vezes me transmitem.

Aprecio a natureza de outra forma, com mais intensidade, sejam dias de chuva ou de sol. 

Dou valor às pequenas coisas que eu conquisto. Seja a um simples sorriso. Seja a algo que consegui realizar através do meu esforço.

Não tenho vergonha de demonstrar os meus sentimentos.

Sinto-me mais humana, muito mais humana para com os outros. 

Com tudo isto, valorizo a vida!


Infelizmente, assim como eu, a maior parte das pessoas não podem apreciar verdadeiramente a beleza da natureza. Não têm tempo para estarem com a família, com os amigos (as), com os seus animais. Não têm tempo para si mesmas… A falta de tempo impede-nos de viver, de espalhar amor sobre a Terra.

Sinceramente, parecemos marionetas nas mãos de uma sociedade que nos controla. Não conseguimos viver verdadeiramente a nossa curta vida. Simplesmente, a desperdiçamos em vão. Somente vivemos para sobreviver… Mas, a vida é muito mais do que isto!

Por isso, se deve pensar na morte, sem medo. Ela não deve ser ignorada. Porque quando se pensa morte algo em nós desperta. E quando se acorda, pensamos que amanhã podemos já cá não estar, passamos a valorizar muito mais a vida. 

A vida é bela! Deve ser aproveitada ao máximo, pois ela passa a correr, e quando olharmos para trás, parece que não se passaram anos, mas somente dias… 

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